
Estava dentro do carro, presa num engarrafamento, escutando música. Enquanto esperava o trânsito fluir, fiquei observando o céu azul e algumas árvores. O dia estava lindo e Domingos Oliveira estava morto. Um homem essencialmente emocional, que tinha um olhar encantado pra vida, que dirigiu filmes, escreveu peças e deixou registrado em livros sua convicção de que nada é mais importante do que os encontros e desencontros, os desejos e as dilacerações que caracterizam a nossa humanidade. Eu o irava tanto, e quando ele se foi, não pensei "que perda". Pensei apenas que ele mereceu morrer em casa ao lado das pessoas que mais amava, e que tudo havia sido um ganho, então, sem drama: só restava dizer "obrigada, Domingos, obrigada, obrigada, obrigada".
Quando você morrer, deixará ao menos uma ou duas pessoas transformadas por sua existência? Você terá feito diferença na vida delas?
Isso me fez lembrar o enterro do pai de uma grande amiga, falecido aos 80 e poucos anos. Enquanto baixavam o caixão, o silêncio era absoluto. Foi então que escutamos a voz grave e comovida de um garoto de 21 anos: "Obrigada, vô". Nossa. Aquele "obrigada" continha todos os sorvetes que haviam tomado juntos, todas as brincadeiras, todos os abraços, todas as discussões, todas as idas ao estádio, todos os conselhos, toda a possante presença de um na trajetória do outro.
Serve para a morte de um parente, de um amigo, e também de uma pessoa pública que fez a parte dela para tornar o mundo mais ável. Se ao cair do pano, ninguém tiver nada a nos agradecer, de pouco serviu ter vivido.
É só abrir o jornal, espiar as redes: esta é uma época estranha, apressada, egocêntrica. Há muita gente do bem, mas várias não se importam com a dor dos outros, elogiam pouco, não escutam nada, não colaboram para a evolução da sociedade, são implacáveis com os outsiders e nunca se perguntam: quando eu me for, deixarei uma impressão positiva sobre minhas atitudes e pensamentos?